quarta-feira, 30 de maio de 2018

Ciclista Urbano Sênior

Relive 'Pequeno Percurso'


Quem abandona uma atividade, seja ela qual for, sabe que retomá-la depois de muito tempo é um tanto estranho. Aquilo que era feito "sem pensar" pronuncia-se a todo momento, como se meu corpo estivesse tentando dizer: "- Ah, era pra fazer isso mesmo? Não lembrava". No meu caso, voltar a pedalar está sendo divertido, mas muito desafiador.

Hoje fiz um percurso de 15 km até o Ibirapuera. Um passeio no quintal, diria tempos atrás. Só que hoje pareceu um audax! Aquilo que eu fazia de olhos fechados, como adequar a marcha com o ritmo, me enrolei todo. As pernas, que antes nem lembrava delas, hoje arderam ao mínimo aclive. Transpirei como se fosse verão e tive que parar duas vezes, pois o suor entrava no olho e ardia. Confesso que até para redigir este texto está mais difícil, pois eu abandonei não só a bicicleta, mas este blog também.

Na minha época de pedal diário, eu me achava fraco. Via outras pessoas batendo 80km numa tacada só e achava que eu, por aguentar no máximo 50, era fraco, mole. Só olhava o que não conseguia, sem me dar conta do que eu era capaz.

Hoje percebi o quanto era forte. Conhecia o meu corpo e limites, sabia o meu ritmo e não tinha medo de ir longe. Esse percurso de 15 km não me cansava ou doía em momento algum. No máximo respirava mais forte em alguns trechos. De fim de semana atravessava a cidade sem medo, a passeio. Ontem eu subi da Sta Cecília até o Paraíso e pareceu o Everest, tamanho o sofrimento.

Passei a respeitar muito mais quem eu era, e pretendo voltar naquele nível que eu achava que não era bom. Pedalar olhando pro horizonte, e não para as pernas. Encaixar a marcha certa sem precisar pensar nisso. Pedalar sem torcer pro próximo farol fechar.

Longe de querer ser um atleta galático, mas um Ciclista Urbano Sênior.


terça-feira, 10 de abril de 2018

763 nãos

Dores nas coxas;
Transpiração muito além do comum;
Sons de lubrificação carente;
Nudez pela falta do capacete;
Incômodo nos pulsos;
Mais bagagem no abdômen;
Incômodo lombar;
Luzes sem bateria;
Corrente raspando;
Tremedeira;
Alegria.

Foram 763 nãos. Hoje resolvi dizer sim. Um dia eu voltaria.

Pedala, Gabriel.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Cicloativistas Anônimos


Os cicloativistas anônimos pedalam muito mais do que você. Não ligam se é Shimano ou Sram. Não estão nem aí se o pedivela for monobloco, aliás nem sabem o que é isso. Lubrificante “wet” pra corrente? Óleo Singer sempre foi e sempre será o ideal. Nada de roupa colada, capacete, luvas, luzes ou qualquer parafernália. Já usavam bike “single” muito antes de virar moda na cidade. Falando em cidade, eles pedalam por ela há décadas, e estarão pedalando mesmo se “a onda da bike” passar. Suas magrelas são de aço carbono, mas eles não sofrem nem reclamam disso. Melhor, podem soldar à vontade. Não têm medo de ladeira nem vergonha de subir empurrando. Como disse, eles pedalam muito mais do que você.


Cicloativistas Anônimos talvez sejam os mais legítimos dos que acreditam na bicicleta. Bem, ele não só acredita como faz dela sua realidade. Não está atrás de likes. Não que isso seja errado, mas é que Cicloativistas Anônimos não estão pela causa, estão pela praticidade.


Nunca são fotografados para ilustrar matérias (tá eu não fotografei ninguém aqui, mas não vou colocar fotos sem autorização, né?), nem são ouvidos quando uma ciclovia nova é inaugurada. Não devem ser fotogênicos o suficiente para vender a causa, na mente de alguns. Mas graças a eles, a verdadeira indústria da bicicleta brasileira roda, abastecendo bicicletarias de periferia, com peças muitas vezes de qualidade, mas sem grife. Aquela bicicletaria cheia de bikes usadas penduradas à venda, onde do lado da bomba de ar sempre tem um tanque cheio de água preta.



São cidadãos simples, que sem fazer alarde preenchem as estatísticas há muito mais tempo do que as próprias estatísticas existem. Não endeusam a bicicleta, tavez nem saibam o bem que fazem ao planeta. Apenas usam a magrela para o que ela foi feita: ir do ponto A para o ponto B.

Cicloativistas anônimos, o meu total respeito e MUITO OBRIGADO.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ah, o paulistano médio.


Hoje, vindo ao trabalho, experimentei uma dose do fruto dessa política de ódio que partidos de oposição e a mídia têm praticado contra ciclistas e ciclovias.

Pedalando na Av. República do Líbano, uma mulher em seu carro me ultrapassa aos berros, gritando para eu ir pra ciclovia.

Claro que ela fica presa no trânsito e eu alcanço fácil. Claro que agora ela estava com o vidro fechado. A piada: ela estava toda enrolada tentando colocar o cinto, já com sentimento de culpa no subconsciente.

Nos poucos segundos que levei para ultrapassá-la, até pensei em argumentos civilizados, mas minha vontade era de insultar. E usei a pior ofensa possível que uma pessoa do perfil dela poderia receber. Disse “-Tenha um bom dia”.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Inauguração da Avenida Paulista.


Domingo de sol, avenida fechada para os carros. Somente bikes, pedestres, skates, carrinhos de bebê, cachorros e seres humanos em geral. Nada de motores à explosão, apenas veículos movidos pelo combustível mais bacana que existe: arroz e feijão.

Mesmo com as ruas bloqueadas, os ciclistas paravam nos faróis e para os pedestres. Chega a ser vergonhoso sentir orgulho de algo que deveria ser comum, mas é a prova de que existe civilidade e gentileza nos paulistanos. Bastou humanizar o local.

Por essas e outras eu digo que, no dia 28 de Junho de 2015, a Avenida Paulista foi finalmente inaugurada.